Metrópole de Vitória e a transição demográfica

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A Região Metropolitana da Grande Vitória caminha para a fase final do processo de transição demográfica, com a diminuição da mortalidade – em especial a infantil –, elevação da esperança de vida, a alteração da representação dos grupos etários, com a redução do número de jovens e envelhecimento progressivo da população. A análise completa das tendências demográficas da metrópole capixaba é um dos destaques do livro “Vitória: transformações na ordem urbana”.

Segundo Estefânia Ribeiro da Silva, pesquisadora do Núcleo Vitória do Observatório das Metrópoles e do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), a RM da Grande Vitória tem passado na última década (2000-2010) pelo processo da transição demográfica, gerando a situação favorável e transitória chamada de “bônus demográfico”.

“Essa etapa é caracterizada pela diminuição da relação de dependência da população inativa sobre a ativa. Ao longo das próximas décadas, acreditamos que ocorrerá na metrópole de Vitória um fenômeno semelhante ao que se passa em outros grandes centros urbanos brasileiros com a transferência gradativa do segmento adulto para o grupo dos idosos, intensificando o processo de envelhecimento em curso. A RMGV se caracteriza ainda por um processo de feminização da população, já que a duração da vida se alonga – e as mulheres são mais longevas que os homens – além da incidência de riscos de mortalidade ser maior para o sexo masculino”, explica.

O livro “Vitória: transformações na ordem urbana” apresenta dois capítulos analíticos sobre as tendências demográficas. No primeiro “A Região Metropolitana da Grande Vitória na transição demográfica brasileira – Análise da dinâmica demográfica dos municípios da RMGV a partir das mudanças ocorridas entre 2000 e 2010”, assinado por Cynthia Lopes Pessoa de Miranda, Aurélia H. Castiglioni, Estefânia Ribeiro da Silva e Silvia Buzzone de S. Varejão, é traçado um quadro do processo demográfico da RMGV – formada pela capital do Espírito Santo, Vitória, e por mais seis municípios – Cariacica, Fundão, Guarapari, Serra, Viana e Vila Velha. Esse espaço metropolitano compreende 1.687.704 pessoas, o que representa 48% da população do Estado em 2010, de 3.514.952 habitantes.

Segundo Estefânia Ribeiro da Silva, o livro coloca em evidência que existe uma variabilidade importante no interior de RMGV. “A heterogeneidade socioeconômica dos sete municípios que formam a região, resultante das diferenças espaciais de desenvolvimento, indicam níveis e modelos distintos de evolução dos processos analisados e das características gerais acima descritas”, afirma.

Os resultados do livro apontam que Vitória, o Polo da RMGV, é o município mais diferenciado. Apresenta elevadas densidades demográficas em um espaço largamente ocupado. Seu crescimento, o mais baixo do conjunto, provocou a diminuição da representação de sua população no total da RMGV e a queda para a quarta posição no ranking dos municípios.

Observa-se na região a tendência à desconcentração populacional do Polo em favor das regiões periféricas. A capital encontra-se mais avançada no processo da transição demográfica, traduzido pela menor proporção do segmento de 0 a 14 anos e pelas representações elevadas de ativos e de idosos. É o único que apresenta saldo negativo nas trocas migratórias.

Já os municípios mais altamente integrados, Vila Velha, Cariacica e Serra, os mais populosos, apresentam diferenças em seus padrões demográficos.

Vila Velha é o que mais se assemelha a Vitória quanto ao curso da transição demográfica e destaca-se por ser um dos mais atrativos do conjunto.

Cariacica, juntamente com o Polo, perde população em favor dos demais municípios.

Serra apresenta particularidades: migração importante, crescimento elevado, a estrutura mais jovem.

Viana, classificada na categoria de nível de integração alto, apresenta valores médios para os indicadores demográficos, salvo para a duração de vida, a menor do conjunto.

Guarapari, de integração média assemelha-se à Vitória, Vila Velha e Fundão com relação aos indicadores que mostram a longevidade da população e apresenta, como Vitória, Vila Velha e Serra, predominância dos deslocamentos interestaduais.

Fundão, município de baixa integração, com a menor população do conjunto, apresenta várias especificidades: por um lado, a fecundidade mais elevada da região, acima do índice de reposição, maior crescimento demográfico e maior taxa de migração, por outro lado, comportamento similar ao apresentado por Vitória e Vila Velha com relação à representação elevada de idosos e aos níveis da esperança de vida.

 

Diferenças demográficas, sociais e econômicas na RMGV

Já no Capítulo 5 do livro “Organização social do território: dinâmicas demográficas, mobilidade espacial e arranjos domiciliares”, assinado por Silvia Buzzone de S. Varejão, Estefânia Ribeiro da Silva, Aurélia H. Castiglioni e Gutemberg Hespanha Brasil, a transição demográfica da RMGV é vista sob uma nova ótica: a da segmentação social, originada do modelo metodológico das Tipologias Socioespaciais do Observatório das Metrópoles.

“Participar da elaboração deste capítulo foi muito importante por conta do uso das Tipologias Socioespaciais, já que a metodologia nos permite analisar a metrópole a partir de um olhar diferente – para além dos limites municipais –, propondo uma nova categorização do território urbano”, explica Estefânia Ribeiro da Silva que completa:

“Além disso, o método de hierarquia socioespacial nos permitiu explicitar fenômenos antes intuídos, e que se tornaram explícitos quando considerados sob a ótica dos grupos socioespaciais. Por exemplo, o tipo Superior-médio (o qual se refere à classe dirigente e maior poder aquisitivo) apresenta indicadores demográficos de países desenvolvidos que já terminaram o seu processo de transição demográfica”.

Na metrópole da Grande Vitória o tipo Superior-médio está em um estágio mais avançado da transição demográfica quando comparada aos outros tipos da RMGV – menor proporção de jovens e a maior de idosos, menor razão de dependência (RD), maior índice de envelhecimento (IE), menor probabilidade de morte de crianças menores de 5 anos e maior esperança de vida e a menor taxa de fecundidade. “As características apresentadas pela área Superior-médio, bem como a forma da sua pirâmide etária, a aproximaram das localidades mais desenvolvidas”, completa Estefânia Ribeiro.

Por outro lado, a tipologia Popular-agrícola, em 2000, registrou os indicadores demográficos próximos das regiões menos desenvolvidas – a maior proporção de jovens e a menor de idoso, maior RD, menor IE, maior probabilidade de morte de crianças menores de 5 anos e maior taxa de fecundidade.

Outro ponto apontado pelo estudo refere-se à relação da transição demográfica com o perfil das unidades domésticas. De acordo com Estefânia Ribeiro, os arranjos domiciliares na RMGV reduziram de tamanho, sendo que quanto mais alto na hierarquia socioespacial menor a proporção de Casais com filhos e maior o peso dos domicílios Unipessoais.

“As mulheres e os idosos passaram a ter uma participação crescente como responsáveis pelo domicílio, este último refletindo o envelhecimento populacional. Foi possível identificar diferenciações no perfil das unidades domésticas (cor, sexo, nível de instrução, renda da unidade doméstica, entre outros) entre os tipos socioespaciais, o que sugere uma relação entre a organização social do território e a forma como as unidades domésticas se constituem, tendo em vista suas condições socioeconômicas e de vida”, aponta Estefânia.

“Vitória: transformações na ordem urbana” se propõe a analisar as transformações na ordem urbana da Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV), abordando diversas perspectivas, a saber, metropolização, economia, demografia, trabalho, renda, educação, mobilidade, habitação, segurança pública, governança e bem-estar urbano. É composto por 11 capítulos organizados em 3 partes: O processo de metropolização; A dimensão socioespacial da exclusão/integração; Governança, gestão e bem-estar urbano.

A publicação marca a inserção do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) como Núcleo Vitória nas pesquisas nacionais em rede do Observatório das Metrópoles, constituindo uma referência que visa subsidiar políticas públicas e futuros estudos na RMGV.

Para download do livro “Vitória: transformações na ordem urbana”, acesse os seguintes links:

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