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Sarandi, Maringá e Paiçandu: a produção da moradia no aglomerado metropolitano

Considerado um território estratégico de mercado por compor uma única mancha urbana integrada tanto do ponto de vista do movimento pendular como das relações socioeconômicas, o aglomerado de Sarandi, Maringá e Paiçandu é a área tradicionalmente com maior expressão de produção e políticas habitacionais na Região Metropolitana de Maringá (RMM). Somente em Maringá, o município-polo da RMM, a área liberada para construção de habitação social aumentou em 30% de 2010 para 2012 graças à disponibilidade de crédito imobiliário, ao alto custo dos terrenos e à demanda por imóvel. Em 2011, a Prefeitura de Maringá aprovou o dobro de edifícios destinados a tal fim, passando de 36, em 2010, para 70 naquele ano, com relativa participação do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), que veio a contribuir com 8 desses edifícios.

O grande volume de crédito imobiliário destinado ao noroeste do Paraná, acompanhado do ritmo acelerado de produção do PMCMV em Maringá, sobretudo a partir de 2010, apontou para dois aspectos no padrão socioespacial desse aglomerado: a manutenção da pobreza em condições periféricas, especialmente em Sarandi e Paiçandu, e, por outro lado, uma sutil redução da segregação socioespacial mediante a instalação de conjuntos habitacionais em áreas ocupadas pela classe média.

Segundo os pesquisadores Beatriz Fleury e Silva e Ricardo Dias Silva, autores do capítulo 8, “A produção de moradia entre 2000 e 2013 e o impacto na organização socioespacial do aglomerado metropolitano Sarandi-Maringá-Paiçandu”, integrante do e-book Maringá: transformações na ordem urbana, a cidade de Maringá destinou 70% de suas unidades habitacionais às faixas 2 (de 3 a 6 salários-mínimos) e 3 (acima de 6 salários-mínimos) do Programa e, mesmo assim, reservando os terrenos mais valorizados e próximos ao Centro à última faixa citada. Contudo, os autores apontam que a instalação dos conjuntos habitacionais destinados a faixa 1 (de até 3 salários-mínimos) e 2 nas bordas do município tem sido acompanhada de alterações relativamente positivas do que em outras épocas:

– Todos os empreendimentos públicos das faixas 1 e 2 se localizam em áreas periféricas de Maringá, três deles em áreas da expansão do perímetro realizada para suas acomodações, ampliando as distâncias sem que todos recebam soluções de transporte, entretanto é preciso dizer que quase a totalidade tem sido assistida por infraestrutura e equipamentos públicos, o que não ocorria em décadas passadas – atestam Beatriz Fleury e Silva e Ricardo Dias Silva.

Os municípios de Sarandi e Paiçandu, muito embora estejam em posições periféricas em relação à Maringá, também vêm reproduzindo os mesmos critérios de instalação e localização de seus empreendimentos habitacionais efetuados no município-polo, demonstrando a influência do mercado imobiliário em desfavor da política de direito à moradia. Em Sarandi, por exemplo, estão sendo construídas 470 unidades destinadas à faixa 1 do PMCMV em áreas não urbanizadas, enquanto nenhuma das 436 unidades já entregues para a mesma faixa está inclusa em Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis) definidas pelos Planos Diretores e de Habitação elaborados no final dos anos 2000.

Já o primeiro empreendimento do PMCMV da cidade de Paiçandu, previsto para ter sido inaugurado em 2014, teria como perfil as faixas 2 e 3 do Programa sob a forma de condomínio vertical. No entanto, o terreno reservado à construção desse edifício havia sido denominado como prioritário para Zeis de acordo com o Plano Local de Habitação de Interesse Social (PHLIS) divulgado em 2008, o que destoaria o perfil do empreendimento em construção quanto ao interesse social designado ao terreno, que deveria ser contemplado pela faixa 1, de classe baixa a baixa classe média. Mesmo assim, segundo os autores, o interesse social não foi respeitado:

– Embora ainda não aprovado em lei, [o terreno] havia acenado como local ideal para receber moradias de interesse social, o que não segue o total padrão do empreendimento. No final de 2011, entretanto, a área foi liberada para o empreendimento e não considerada Zeis, demonstrando mais uma vez a soberania do mercado imobiliário sobre o processo participativo recém ocorrido.

Enquanto o atendimento ao deficit habitacional de Paiçandu entre 2000 e 2013 foi quase nulo, em Sarandi 81% das moradias populares empreendidas na cidade foram realizadas pela ação do Estado com notável acréscimo das unidades habitacionais em áreas de tipo Operário Popular e Popular, especialmente nas zonas sul e oeste desse município. Em Maringá, apesar da instalação de conjuntos habitacionais em áreas Médias ter contribuído para amenizar a segregação, por outro lado, gerou adensamento populacional em bairros já consolidados:

– A produção de moradia entre 2000 e 2013 cresceu no aglomerado, acompanhando o ritmo do crescimento populacional anual de 2,15%. Em Maringá, o aumento ficou por conta de novos loteamentos e do adensamento populacional de bairros existentes, nas áreas de tipo Superior médio e Médio – afirmou Ana Lucia Rodrigues, editora do e-book Maringá: transformações na ordem urbana, em depoimento ao boletim nº 132 do Observatório das Metrópoles.

Apesar de Beatriz Fleury e Ricardo Dias Silva qualificarem como positivas algumas alterações evidenciadas no padrão socioespacial do aglomerado, os autores também alegam que a expansão do capital imobiliário deve ser controlada mediante a aplicação de instrumentos urbanísticos que equilibrem a valorização do solo dessas zonas, especialmente em determinadas áreas de Sarandi, que, na medida em que estão recebendo novas unidades, poderão passar de áreas populares a médias:

– Caso contrário, assistiremos expulsão das camadas de mais baixa renda para áreas mais distantes acentuando, portanto, a fragmentação socioespacial intraurbana – pontuam.

Acesse na íntegra o capítulo 8 “A produção de moradia entre 2000 e 2013 e o impacto na organização socioespacial do aglomerado metropolitano Sarandi-Maringá-Paiçandu”, de Beatriz Fleury e Silva e Ricardo Dias Silva, contido no e-book Maringá: transformações na ordem urbana, na nossa página dedicada à série Metrópoles: Transformações Urbanas.



Coleção “Metrópole: Território, Coesão e Governança Democrática”

O e-book Maringá: transformações na ordem urbana integra a Coleção “Metrópoles: Território, Coesão e Governança Democrática” e representa para a Rede Nacional Observatório das Metrópoles o projeto mais importante no âmbito do Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT). O objetivo da pesquisa é oferecer a análise mais completa sobre a evolução urbana brasileira, servindo assim de subsídio para a elaboração de políticas públicas nas grandes cidades e para o debate sobre o papel metropolitano no desenvolvimento nacional.

A coleção conta com 14 livros (em formatos PDF e e-book) que analisam de forma comparativa as principais mudanças urbanas nas principais metrópoles do país, no período 1980-2010.

Avanços e barreiras na gestão metropolitana da Baixada Santista

O processo de metropolização da Baixada Santista está perto de completar vinte anos e ainda não con-seguiu solucionar problemas sérios relacionados a demandas comuns entre os municípios. O e-book “Baixada Santista: transformações na ordem urbana” apresenta uma análise detalhada dos avanços e barreiras para a gestão metropolitana da RMBS em áreas como saúde, moradia, saneamento e mobilidade urbana. Segundo André Rocha Santos, apesar de não conseguir viabilizar um governo metropolitano, a região passou a contar com importantes instituições de fomento e organização.

O e-book “Baixada Santista: transformações na ordem urbana” analisa no capítulo 9 “Gestão urbana e políticas públicas na Baixada Santista: padrões, efeitos e desafios” os planos e projetos de caráter metropolitano na RMBS para mostrar que, apesar de virem sempre de cima para baixo, ou seja, do governo estadual ou do governo federal, sempre tiveram sua importância e legitimidade reconhecidas na região.

No caso da saúde, por exemplo, houve o empreendimento pioneiro para a implantação do SUS em Santos — que não foi acompanhado pelas outras cidades — e que terminou por ocasionar um desequilíbrio entre a qualidade e o atendimento na saúde pública da região, sobrecarregando o município santista com a vinda de moradores de outras cidades. “Atualmente, com a implantação das Redes Regionais de Atenção à Saúde do governo federal, pretende-se reduzir as desigualdades referentes ao atendimento”, explica André Rocha Santos, um dos pesquisadores do tema da governança metropolitana.

Já em relação à questão do saneamento básico, o governo do estado de São Paulo faz a integração entre os municípios da Baixada Santista por meio da Sabesp. A companhia funciona como o mediador local, gerenciando as disputas por áreas e captação de recursos que poderiam ocorrer caso ela não exercesse esse papel — o que acontece em outros estados onde não há uma companhia estadual de saneamento básico. Desse modo, a região é uma das mais saneadas do país, com municípios em que a cobertura é quase total, como é o caso de Santos e de outros municípios que se encaminham para esse patamar, como Praia Grande e São Vicente.

No tocante às condições habitacionais, a região convive com situações de extrema pobreza em locais totalmente inadequados para moradia. “Novamente, o governo do estado é o principal responsável pela oferta na região, impulsionado pelas ações nos últimos anos do governo federal. Em termos de diversidade, as características da região têm sido contempladas com programas específicos para os cortiços do Centro de Santos, a retirada dos moradores das encostas da Serra do Mar e programas voltados aos índios e às populações quilombolas. A qualidade das moradias, alvo de recorrentes críticas, permanece como fator negativo da empresa estadual responsável na busca de minorar os problemas no setor”, argumenta Santos.

Por fim, a análise da questão da mobilidade urbana se traduz na crítica à demora — pelo menos três décadas — para o encaminhamento de certas situações, haja vista que o túnel Zona Leste-Zona Noroeste em Santos já havia sido antevisto por Prestes Maia na década de 1940. “O VLT e as ‘obras complementares’ da Rodovia dos Imigrantes são obras de integração necessárias e que, apenas nos próximos anos, sairão do papel” explica o pesquisador.

Governança metropolitana. A análise aponta que os municípios, o governo estadual e o governo federal estão buscando “recuperar o tempo perdido” e estão tentando se adequar, às pressas, à nova realidade dos últimos anos de melhora da economia e do poder aquisitivo da população.

“A melhor forma de uma Gestão Metropolitana ou Governança Metropolitana não existe. O que existem são formas diferentes de administrar que vão se adequando ao contexto e às especificidades da região em que estão inseridas. Entretanto, isso não significa a impossibilidade de se fazer uma análise do processo decisório relacionado aos temas metropolitanos. O exame feito mostra que a metropolização da Baixada Santista está perto de completar vinte anos e ainda não conseguiu solucionar problemas sérios relacionados a demandas comuns entre os municípios. Muitas vezes, as decisões isoladas impedem uma abordagem conjunta em torno de problemas iguais. Para que o processo de integração funcional ocorra de fato, é necessário romper certas barreiras que envolvem interesses isolados de cada cidade”, defende André.

O pesquisador reconhece que, apesar dos problemas, no que tange à organização institucional da Região Metropolitana, o saldo será positivo caso se faça a comparação com outras Regiões Metropolitanas. Isso porque, ao longo desses anos, a região não conseguiu viabilizar de forma efetiva um Governo Metropolitano com autoridade e legitimidade para encaminhar as demandas regionais; contudo, passou a contar com importantes instituições de fomento e organização, como uma agência de desenvolvimento (Agem), um fundo metropolitano (Fundesb) e um conselho de representantes (Condesb). “Apesar de serem iniciativas vindas de outra esfera de governo, têm cumprido importante papel, e suas ações têm sido reconhecidas tanto pelos governos municipais quanto pela população em geral. Caso diverso do que acontece, por exemplo, com a alternativa dos consórcios, uma iniciativa vinda dos municípios — de baixo para cima —, que, entretanto, a região não foi capaz de produzir”.
Faça o download do livro “Baixada Santista: transformações na ordem urbana” e veja a análise completa sobre a governança metropolitana da metrópole litorânea paulista.

Baixada Santista: crescimento econômico e desigualdade social

Neste depoimento, Marinez Brandão, Maria Graciela Morell e André Rocha Santos mostram que o e-book “Baixada Santista: transformações na ordem urbana” traz uma contribuição fundamental para a compreensão da metrópole litorânea paulista, buscando elucidar as principais transformações macroeconômicas, macrossociais e macropolíticas neste início de século XXI. Segundo os organizadores, o processo de metropolização da RMBS é marcado pelo crescimento econômico, porém com ampliação da desigualdade social.

Marinez Brandão, Maria Graciela Morell e André Rocha Santos são os editores do e-book “Baixada Santista: transformações na ordem urbana”; o depoimento a seguir faz parte das ações de difusão da Coleção “Metrópoles: transformações urbanas” que a Rede Nacional INCT Observatório das Metrópoles tem articulado com o propósito de ampliar o debate metropolitano e subsidiar, no contexto do novo Estatuto das Metrópoles, a implementação efetiva de instrumentos de governança metropolitana.

Por que vale a pena ler “Baixada Santista: transformações na ordem urbana”?

O livro Baixada Santista: transformações na ordem urbana reuniu um grupo de pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento como sociólogos, economistas, demógrafos, advogados, biólogos, assistentes sociais, cientistas políticos e outros que buscaram contribuir com suas visões particulares para uma compreensão geral da Região Metropolitana em suas características e especificidades.

A centralidade da obra foi o estudo da Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS) referente ao projeto de análise comparativa das metrópoles na ordem urbana brasileira entre 1980 e 2010. Os artigos aqui reunidos contaram com a colaboração de professores e pesquisadores que buscaram contribuir para o objetivo fundamental do Observatório das Metrópoles, que é o de ampliar e consolidar um programa pluri-institucional e pluridisciplinar, aliando pesquisa e ensino, promovendo atividades que possam influenciar as decisões dos atores que intervêm no campo da política pública, tanto na esfera do governo, quanto da sociedade civil, tendo a Baixada Santista como referência.

A partir das análises — que procuraram ser criteriosas tanto na abrangência e multiplicidade de elementos que compõem a Região, quanto na profundidade e consistência do exame feito para cada um desses enfoques —, teve também como intuito proporcionar um espaço de pesquisa, debate e intervenção pública sobre a RMBS, buscando elucidar as principais transforma¬ções macroeconômicas, macrossociais e macropolíticas neste início de século XXI.

Abrigando o maior porto da América Latina, um enorme complexo industrial e uma grande quantidade de praias muito próximas da maior cidade do país (e maior mercado consumidor), a Baixada Santista sofre o bônus e o ônus desse contexto singular. Da mesma forma em que acompanha diretamente os ciclos de expansão e desenvolvimento da economia brasileira, também é atingido pelos problemas comuns das grandes metrópoles. A violência, o tráfico de drogas, o déficit habitacional, a falta de saneamento básico em certos territórios, as dificuldades relacionadas à mobilidade e ao transporte público, a poluição das águas e da mata e a destinação dos resíduos sólidos são só algumas das inúmeras questões partilhadas pela metrópole litorânea.

O desenvolvimento econômico da Região historicamente apresenta estreitas relações com o Porto de Santos e com o Complexo Industrial de Cubatão. Na última década (2000-2010) esse processo se intensificou apresentando profundas marcas de crescimento econômico centradas na ampliação e privatização do Porto e no início da operacionalização da extração de petróleo na camada Pré-Sal pela Petrobrás. Esses fatores intensificaram a dinâmica do mercado imobiliário aumentando sobremaneira o valor dos imóveis. Essa dinâmica refletiu-se em toda região, entretanto com maior intensidade em Santos e em São Vicente, pela proximidade com a cidade polo. Com isso, o expressivo aumento do valor dos imóveis estendeu-se a aluguéis de alto valor que, consequentemente, remeteu a um efeito cascata no custo de vida provocando uma modificação profunda no território e uma expulsão da população dos municípios centrais para outros municípios da região, principalmente Praia Grande que teve o maior crescimento populacional nesse período.

A partir das análises apresentadas na publicação podemos verificar a estreita relação entre trabalho/emprego e maiores índices de bem-estar urbano nos municípios centrais (Santos, São Vicente, Cubatão, Guarujá e Praia Grande), ou seja, o espaço de onde se centralizam as atividades ligadas à cadeia produtiva industrial e portuária e como esse índice vai caindo na medida em que essa distância aumenta. Portanto, pode-se dizer que há uma estreita relação entre um melhor índice nas proximidades das áreas com índices deste eixo econômico.

Entretanto, mesmo em Santos, município de maior crescimento econômico na última década e que mais se aproxima de características próprias de metrópole, pode-se verificar marcas dos piores índices, pois também nessa mesma área há aglomerados subnormais, ocupações em manguezais, áreas de ocupação irregular em morros, cortiços e um aumento da população em situação de rua sem domicilio fixo (Censo 2010). Na RMBS, o crescimento econômico, infelizmente, andou de mãos dadas com a desigualdade social.

Nessa perspectiva, o principal desafio dos pesquisadores do Observatório das Metrópoles foi o de captar o reflexo dessas transformações e sua intersecção com a Região Metropolitana em seu caráter local, por meio de uma análise teórico-metodológica que possibilitasse compor um quadro que retratasse as quatro principais dinâmicas que compõem as partes deste livro: o processo de metropolização, a dimensão socioespacial da exclusão/integração, a gestão da Região Metropolitana e as questões ligadas ao meio ambiente e ao território ocupado.

Portanto, o livro deve ser lido como uma investigação que se propõe a discutir criticamente aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais que poderão auxiliar todos aqueles que pretender compreender melhor a Região Metropolitana da Baixada Santista, território tão desigual capaz de encantar (mesmo os que aqui residem) por suas belezas naturais e por sua gente e, ao mesmo tempo, entristecer a todos pela sua enorme desigualdade evidenciada no contraste entre seus bairros nobres e suas favelas, seus territórios elitizados e seus bolsões de pobreza e extrema pobreza.

Marinez Brandão

Maria Graciela Morell

André Rocha Santos

Faça download do livro “Baixada Santista: transformações na ordem urbana”.

Reestruturação produtiva em Porto Alegre

A economia da RM de Porto Alegre passou, ao longo dos últimos trinta anos (1980-2010), por uma série de transformações, como a desconcentração econômica (especialmente industrial) e o crescimento da economia dos serviços. Essa análise da reestruturação produtiva é um dos destaques do livro “Porto Alegre: transformações na ordem urbana”, que também inclui a descrição dos principais polos industriais metropolitanos, no qual contrastam os velhos e novos modelos de industrialização.

Segundo o professor Paulo Roberto Rodrigues Soares, entre 1980 e 2010 a capital gaúcha e a RMPA sofreram importantes mudanças econômicas que repercutiram na sua reestruturação interna e na sua reconfiguração urbano-regional. O processo de desconcentração metropolitana tem reforçado a tendência à policentralidade metropolitana com o crescimento do comércio e dos serviços não só na capital, como em outros centros, especialmente os mais populosos e de economia mais dinâmica.

“Em um primeiro momento (décadas de 1970 e 1980), a expansão metropolitana se produziu pelo transbordamento da mancha urbana da capital e pelo deslocamento da indústria; a partir de 2000, a desconcentração também afetou o setor de serviços, com alguns centros urbanos se convertendo em polos de atividades terciárias. Essa mudança reflete a alteração do perfil da própria economia da metrópole, que se caracteriza por um incremento da participação dos serviços no Produto Interno Bruto (PIB)”, explica.

O e-book “Porto Alegre: transformações na ordem urbana” mostra que em 1980 o setor industrial compreendia um terço da economia metropolitana da RMPA, enquanto que os serviços compunham quase dois terços do PIB. No início dos anos 1990 o setor industrial chegou ao seu auge na economia metropolitana, incluindo a capital. A partir de então, a reestruturação produtiva e o movimento de desindustrialização relativa afetou com mais força o município de Porto Alegre. “As grandes indústrias ‘abandonaram’ o município, assim como as novas implantações industriais buscaram outras localizações na Região Metropolitana. Esse movimento de perda relativa da participação da indústria atingiu de modo diferenciado a RMPA, ao mesmo tempo em que o terciário, que já era predominante na capital, aumentou sua importância em outros centros urbanos”, afirma Soares.

Porto Alegre diminuiu seu peso relativo na economia metropolitana. A redução foi mais drástica no PIB industrial. A última década demonstra produção e serviços mais concentrados nos principais municípios, evidenciando a “desconcentração concentrada” da economia metropolitana. A metrópole diminui seu peso relativo, mas poucos centros da região metropolitana são beneficiados pela desconcentração. Nos serviços, a metrópole mantém elevada participação por diversos motivos: a capital concentra mais de um terço da população metropolitana e conta com a presença dos serviços avançados (terciário superior) nos seus espaços de centralidade.

Já o mercado de trabalho metropolitano refletiu esta reestruturação. Entre 1991 e 2010, a indústria de transformação foi o setor que apresentou a maior diminuição de participação na ocupação. Neste período destaca-se a ampliação da participação dos serviços e do comércio. A RMPA perdeu participação na indústria de transformação estadual. Isto evidencia a continuidade do processo de deslocamento da atividade industrial para além dos limites metropolitanos. Mudanças qualitativas ocorreram no mercado de trabalho metropolitano, como o crescimento do assalariamento e dos trabalhadores com vínculo regulamentado.

A diminuição da taxa de desemprego e o aumento da formalização melhoraram as condições do mercado de trabalho metropolitano. A queda da participação da indústria e o crescimento do terciário no emprego são mais pronunciados na capital e em municípios limítrofes, os quais são mais influenciados pela dinâmica da metrópole.

“A RMPA continuou a atrair investimentos industriais, mas os novos empreendimentos estão baseados em formas de organização da produção e relações de trabalho mais flexíveis, o que contribui para uma menor geração de empregos no setor industrial. A nova economia informacional se faz presente nos Polos Tecnológicos, que representam um novo tipo de espaço industrial, com diferentes impactos sobre o território metropolitano, o qual se insere, assim, nos circuitos da economia global”, argumenta Paulo Roberto Soares.

Desigualdades Sociais na Metrópole de Salvador

O livro “Salvador: transformações na ordem urbana” discute os impactos do chamado “efeito território” na metrópole baiana a partir da relação entre trabalho, escolaridade e estrutura social. O resultado aponta que a RM de Salvador continua segregada e segmentada segundo as diferentes condições sociais dos indivíduos. Os indicadores educacionais da RMS, por exemplo, permanecem precários: de acordo com o Censo 2010, 320 mil jovens de 15 a 24 anos não frequentavam escolas (mais de 50% dos jovens da metrópole).

De acordo com Cláudia Monteiro Fernandes, pesquisadora do Núcleo Salvador do Observatório das Metrópoles, o estudo sobre “efeito território” buscou verificar a relação entre educação/escolaridade, fragilidade ocupacional (trabalho) e a relação onde as pessoas moram. “O livro ‘Salvador: transformações na ordem urbana’ aponta na maior parte das análises que Salvador vem reproduzindo e reforçando os padrões de segregação e as desigualdades que se conformaram historicamente no seu território. Ao analisar o ‘efeito-território’ queríamos comprovar essa hipótese, sobretudo vinculando às condições sociais e de infraestrutura dos vários espaços da metrópole”, explica Cláudia.

Os resultados confirmam que Salvador continua uma metrópole pobre, periférica e marginal. Em relação aos indicadores educacionais, a pesquisa avaliou se os jovens estudam em escola pública ou privada; a performance (frequência escolar e atraso escolar); e a condição escolar dos responsáveis pelo domicílio (chefe da família).

Os indicadores de atraso e abandono escolar mostram que mais de 70% das crianças e adolescentes de 7 a 15 anos que frequentavam escola na RMS em 2010 tinham atraso de, pelo menos, um ano, e cerca da metade, de dois anos. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos, que deveriam estar frequentando o ensino médio, o abandono escolar foi estimado em 14,5%, sendo um pouco maior nos municípios da periferia da metrópole (15,6% do total de jovens nessa faixa etária).

Já a situação de atraso escolar, de 1 ou de 2 anos, das crianças e adolescentes de 7 a 15 anos também está menos presente nas áreas médio-superiores (orla marítima e bairros “nobres” tradicionais), mas sua frequência é maior no subúrbio ferroviário e em bairros como Nordeste de Amaralina, Itapuã e São Cristóvão, assim como nos municípios da periferia da metrópole.

Em relação à distribuição dos domicílios cujos responsáveis tinham pouca ou nenhuma instrução concentrava-se, principalmente, nas áreas populares da metrópole, com exceção da área de Itapuã, mais litorânea. O subúrbio ferroviário e o miolo da RMS concentravam a maior parte de domicílios com essa característica. Em contraste, os domicílios cujos responsáveis tinham nível superior completo localizavam-se nas áreas de tipo médio-superior, na faixa litorânea, em bairros como a Barra, a Graça e a Pituba, seguindo pela orla marítima.

Entre as pessoas responsáveis pelos domicílios 37,7% não tinham instrução, ou mesmo o nível fundamental concluído, e apenas 11,9% tinham nível superior completo em 2010.

A proporção de responsáveis por domicílios que podem ser considerados analfabetos funcionais sobe nos municípios fora de Salvador para 48,5%, quase metade. E apenas 5,4% tinham nível superior completo. A taxa de desemprego chegava a 13,8% na RMS, atingindo 16,1% nos municípios da periferia. E as pessoas ocupadas, consideradas em situação de fragilidade ocupacional, são mais de um terço do total de ocupados na metrópole (34,4%), sendo que, em Salvador, são 33,5% dos ocupados em fragilidade ocupacional e, nos demais municípios da RMS, 37,2%.

“Esses indicadores mais gerais confirmam que o município-polo, ainda que com indicadores pouco melhores que os demais, provê, em média, melhores condições ocupacionais para os responsáveis por domicílios, justificando, em parte, sua grande atratividade em relação à periferia da metrópole e mesmo ao interior do Estado da Bahia, mas com desigualdades marcantes em sua estrutura social e espacial interna”, afirma Cláudia Fernandes.

Para acessar a análise “Organização do território e desigualdades sociais na Região Metropolitana de Salvador”, faça o download do e-book “Salvador: transformações na ordem urbana”.

Terra de Direitos: Livro Curitiba: transformações na ordem urbana

O Brasil não é só urbano, é também um país cada vez mais metropolitano. A rede urbana brasileira é composta hoje de 13 cidades com mais de um milhão de habitantes, megacidades (São Paulo e Rio de Janeiro), 52 Regiões Metropolitanas e 9 aglomerações urbano-regionais. Monitorar as tendências de reconfiguração destes grandes aglomerados urbanos, compreender o seu papel na articulação territorial nas escalas global, nacional e regional, bem como as diferenças existentes entre eles tem sido a contribuição que o Observatório das Metrópoles tem dado ao país nos últimos anos.

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Portal CNPq: Observatório das Metrópoles lança e-book sobre Metrópole de Curitiba

O Brasil não é só urbano, é também um país cada vez mais metropolitano. A rede urbana brasileira é composta hoje de 13 cidades com mais de um milhão de habitantes, megacidades (São Paulo e Rio de Janeiro), 52 Regiões Metropolitanas e 9 aglomerações urbano-regionais.

Diante desse contexto e com o objetivo de aprofundar o debate sobre o papel metropolitano no desenvolvimento nacional, o Observatório das Metrópoles promove o lançamento do e-book “Curitiba: transformações na ordem urbana”, primeiro livro da Série “Metrópoles: transformações urbanas”.

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IJSN lança livro sobre as transformações urbanas na Grande Vitória

O Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) lançou o livro “Vitória: Transformações na Ordem Urbana”. O evento aconteceu no dia 10 de dezembro de 2014 no auditório do instituto e integra o projeto “Transformações na Ordem Urbana das Metrópoles Brasileiras (1980-2010)”, do Observatório das Metrópoles, cujo objetivo é oferecer uma análise mais completa sobre a evolução urbana do país.

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